Causa-me hoje frémitos de amargura e de saudade a leitura destes sonetos. De saudade porque entre as iradas desilusões que os redigiram enramavam-se os dias com os portões dos festejos da libertação. E era uma zanga apaixonada que nos reunia naquele recanto onde madrugada fora se improvisavam e desfaziam governos. Saudades, sim, de brincar com o que é detestável: o poder. Pujança de vida, tudo de pernas para o ar, maridos mandando à fava esposas chatas. Mulheres beijando o Otelo nas trombas de maridos que pela santa revolução engoliam os chavelhos. Saudosa festa da vida, na vertigem de arrancar as algemas, já tão remota a esta necrópole de quimeras democráticas impante de elevadores para o sétimo céu do écu.
E na outra face da saudade, a amargura de serem muitos destes sonetos clamores da minha revolta contra os semeadores de destroços que, lambuzados de revolucionarite, abatiam as bandeiras de pássaros que havíamos hasteado em Abril. Contudo, nenhum deles renego. Mantenho que Otelo, que muito estimo, é um desastre a fazer de mauzão, o que digo por palavras mais agrestes no soneto VII do capítulo “O sacrifício”; que o PCP para protagonizar a liderança de massas que não liderava se prestou a ser esponja de todo o desvairo de extremismos cujo reflexo teria de dar na paranóia deste liberalismo de Chicago boys. Mas irreprimível me foi homenagear por essa altura em crónica (A Luta, 31-01-76) o mesmo Cunhal que aqui verbero, fazendo jus à aristocracia que continua a irradiar da majestosa fidelidade aos seus princípios:
“Remato, pois, estes elogios que, num campo adverso ao elogiado, teço a esse transparente condutor de um comunismo totalitário que sempre combati e combaterei, agradecendo-lhe mostrar ele a cara àqueles que realmente a combatendo nisso lhe estimam a franqueza da luta.
Quanto aos outros, os que detestando-o o temem e, temendo-o, fazem a batota de esconder o que Cunhal não esconde, creio que o Sr. Cunhal e eu estamos de acordo em negar-lhes qualquer espécie de simpatia.”
Não menos mantenho que Vasco Gonçalves, cuja honestidade hoje é forçoso sublinhar, foi um momento deploravelmente patético da convulsão desse imediatismo revolucionário com as tripas do seu “não saber para onde ir” a mostrar o que, com gume de lâmina mordaz excessivamente afiado, ao correr da pena tematizei no soneto VII do capítulo “O sacrifício”. Insisto, realçando a sua actualidade na justeza da motivação que me indispôs contra os nossos improvisados descolonizadores que pusilanimemente (ou expressamente?) confundiram descolonizar com abandonar (veja-se a tragédia de Timor), favorecendo o estabelecimento nas novas nações (soneto XI, capítulo “O sacrifício”) de regimes propícios ao avanço da estratégia soviética. Leia-se o que a este respeito esclareço ser a minha perspectiva contemporânea do referido soneto mas só publicada dois anos depois no meu Diário e Algo Mais “Não Percas a Rosa”:
“O jogo é aberto demais para que nos convençamos de que nele não se esconde o best de uma criptoestratégia do imperialismo norte-americano. Não é crível que este juiz final da nossa liberdade de acção medida pelo compasso dos seus interesses nos veja despejar no cofre soviético tantas gemas do tesouro africano. Pode-se assim imaginar, no recôndito da placidez com que a América vê deslizar para a órbita soviética as novas nações, um ninho de esperanças nos custos económicos que a Rússia terá de pagar pela sua hegemonia em países paupérrimos como Cabo Verde ou descapitalizados de técnicas para explorarem os seus recursos. Visto nesta perspectiva, o nosso humanismo descolonizador não passa do agente de um racket.”
Enfim, consumatum est, o que podendo parecer agora um vaticínio mais não foi do que a leitura de uma evidência em cujo horizonte se desenleava a mão ávida de uma América que em Angola quis espalhar as benesses da democracia, nome que o puritanismo vocabular do Tio Sam prefere usar em vez de mercado.
Tampouco renego, ainda que cinja a sua autoria ao meu avatar dessa época, os três sonetos finais que culminam na exaltação de um nacionalismo místico-pessoano ditados por uma apetência de antipoder no enquadramento de um massacre dos valores da nossa herança cultural em que se chegou a sentenciar que Camões era fascista.
Nem mesmo recuso o soneto II do capítulo “Já as primeiras cousas são chegadas”, que surdiu do assombro de eu dar comigo na janela do meu quinto andar a gritar para uma multidão lançada em fúria desatada na caça de um pide: “Não o matem!” “Como?”, interroguei-me, “como posso eu querer arrancar às garras da vingança o espécime de uma raça de verdugos que abomino?” Para meu vexame em caridosa brandura se desmoronava a imagem de Maria da Fonte de intentonas em que me metera? Não. Felizmente, a dar sentido ético à minha atitude veio-me à lembrança a nobre figura de Bento de Jesus Caraça. Torturado no antro de suplícios pidescos, perguntou ele ao carrasco: “Por que me torturam?” Ao que o algoz respondeu:“Se o não fazemos, amanhã está você no lugar onde eu estou a torturar-me.” Com a serenidade da sua elevação moral, o cientista respondeu: “Não. Eu nunca o faria, visto que estou aqui porque nunca podia estar no lugar onde você está.”
Pois a “minha revolução” era isso mesmo. A impossibilidade moral de fazer aos sicários as canalhices que eles nos faziam.
Conclusão: não sirvo para revoluções. Estas, bem entendido, que desmoronam estruturas para as refazer com o mesmo cimento da gula do poder. Porque na que está por fazer, a abertura da psique humana à plenitude do ser, estou eu de alma inteira a acusar a história de nos ter escondido que todas as revoluções foram até hoje desnaturados exercícios da Verdadeira.
Natália Correia